Sobre o Restaurante

No Pátio (ou Páteo) Bagatela, Lourenço Viegas encontrou e provou um restaurante bom e sem pretensões de artista.

É costume ouvir-se que a arte num restaurante é tão boa como a comida nos museus. Como tudo o que se ouve dizer, é verdade e não é. É que a comida num museu é indispensável. Depois de três horas de Monets sabe bem sentar um pouco, esticar as pernas e ver de perto e com tempo aquelas italianas irmãs, mães e filhas que mais parecem irmãs, que iam olhando com um tédio irresistível os quadros à minha frente, no circuito Ikea, no sentido dos ponteiros dos relógios, em que se transformaram os grandes museus. Mas a arte nos restaurantes é totalmente dispensável. Como a música nos serviços públicos, ou o teatro no ensino da matemática.

O restaurante Sabor & Arte não esconde ao que vem. Ou melhor, esconde. Apesar de um nome descritivo e extenso, é possível lá estar sem ver, nem cheirar, nem ouvir arte. Se calhar a arte do nome é arte de bem receber, a arte de bem cozinhar, ou a arte de bem comer, ou outra parvoíce qualquer – e não o significado normal de arte em restaurantes que são uns quadros pindéricos dos amigos dos donos e outros pintores frustrados que se arrastam nas paredes.

E ainda bem, porque no Sabor & Arte a comida é boa, o serviço eficiente, e o espaço muito interessante.

Esplanada do Sabor&ArtePara começar, o Sabor & Arte tem a vantagem de ter uma esplanada quase ideal. Lisboa, ao contrário do que pensa literalmente toda a gente, não é a cidade ideal para esplanadas. Ou está muito sol, ou está vento, por isso sabe bem a esplanada enclausurada, protegida, um útero de betão, em que bate pouco sol e sopra pouco vento. As salas, dentro, são espaços também acolhedores, sólidos, familiares. O serviço é eficiente, sem mimos (e a sugestão “de um robalinho para dois” é ouvida vezes demais).

No pão, bom, o pormenor de uma broa com enchidos. Boas sopas. Agora no Verão, que se calhar já se escreve com minúscula, sabe bem o gaspacho que não é excepcional, mas sempre refresca.

A carta é abundante e muda muito, talvez devido a repetição clientelar ao almoço. Pratos sobretudo tradicionais. Boas carnes grelhadas (é sempre melhor dizer carnes grelhadas do que grelhados, porque grelhados cheira logo, e muito, a grelhados), muitas delas com diminutivos: cabritinho, costeletinha. Batas fritas verdadeiras e bem fritas, normalmente acompanhadas de grelos.

Bons também os peixes grelhados: um cherne suculento por dentro, tostado nas pontas, salgado no ponto. Panacotta substancial, saborosa, boa mousse de chocolate e de maracujá. Carta de doces farta.

É dos poucos restaurantes que consegue ter um ambiente próprio ao almoço e outro ao jantar. E já disse que nem se nota aquela coisa da arte? Eh pá, mas será que o nome é uma chalaça sabor & arte, saborear-te? É que se é, lá perdi o mote para umas piadolas mais brejeiras.

Rua da Artilharia Um, 51. Loja Q – Páteo Bagatela. 21 386 5390